Por mais divertido que achemos o tom bonachão de alguns italianos, as oliveiras não surgiram Itália…

Como toda história muito antiga e cheia de interesse, a introdução das oliveiras na Itália conta com mais de uma versão.

Versão I: Conta que “colonos gregos” a introduziram no século VIII AC, especificamente no sul da Itália na região chamada “Magna Graecia”. No mesmo século observou-se a fundação da cidade de Roma.

Só para ajudar a situar: A Guerra de Tróia (Ilíada narrada por Homero) ocorreu provavelmente em no século XIII AC, ou seja: Nem Menelau, Agamenon ou Aquiles não consumiam azeite… Talvez por isso a demora de 10 anos da queda da cidade.

No século indicado como sendo da introdução das oliveiras na Itália (VIII AC), a Grécia não existia como Estado unificado, apenas as chamadas “cidades estados”, ou “pólis”, começavam a se formar. Essas “pólis” definiram a base para o estilo de vida urbano seguido pelo ocidente. Dessa época vem a definição do homem como “Animal Político”, três séculos antes do aparecimento de Sócrates, dito o pai da filosofia ocidental. Com tanta partenidade na Grécia o Sr. Gus Portokalos não devia estar muito errado.

Voltemos às nossas “verdinhas”.

Dos colonos gregos a oliviera foi “adotada” pelos etruscos e outros povos ainda não conquistados pelo poder central de Roma. Isso ocorreu do centro para o Sul da Itália. A própria origem e cultura do povo etrusco é motivo de controvérsia quanto a origem da cultura em solo italiano. Vejamos as outras versões.

Versão II: Os etruscos que habitavam o centro-sul da Itália no século VIII AC possuíam estreita atividade comercial com os gregos e fenícios. Desta forma abre-se a possibilidade da introdução da cultura apenas graças aos etruscos, que teriam obtido as primeiras espécies através do comércio vindo da Grécia e Ásia Menor (Síria – Palestina). Os fenícios eram os maiores comerciantes da época, inclusive tendo sido a esses atribuído a disseminação da olivicultura em diversos outros países.

Versão III: Essa é a versão mais frágil e relaciona-se a origem do povo etrusco que poderia ter surgido na Ásia Menor e com eles trazido as primeiras mudas de oliveira.

Depois de treze séculos de desenvolvimento da cultura, que se espalhou principalmente no Sul do atual território Italiano, ocorreu uma drástica redução do interesse pela mesma após a queda do império romano no ano de 476 DC.

O último imperador romano, Rômulo Augusto, foi destituído por Odoacro, rei do povo germânico hérulo. Não apenas os germânicos invadiram o império romano. Os seus últimos dois séculos Roma agonizou com invasão de povos bárbaros, que via de regra não haviam desenvolvido o gosto pela azeitona e o azeite, mas tinham como principal fonte de gordura os animais, em especial o porco. A parte ocidental do império foi ocupada pelos germânicos, e a parte oriental continuou existindo sob o nome de Império Bizantino. A terra foi tomada por outras culturas de grãos e frutas.

Mas as tradições e culturas não são facilmente esquecidas ou substituídas, nem mesmo hoje quando nossas referências são muito mais artificiais e efêmeras, muito menos quando se trata de uma forma de viver se alimentar e gosto arraigado por séculos. Árvores em vilas, famílias permaneceram e apesar das dificuldades impostas pelos novos regimes e anarquias que surgiam, sobreviveu. Quem sabe graças a essas dificuldades muitos cultivares tenham permanecido isolados, e até mesmo tenha sido responsável pelo isolamento do aumento de variedades encontradas hoje na Itália.

Por volta do ano 1.000 que ocorreu algo que aceleraria a retomada atenção a olivicultura na Itália. Isso muito antes de sua unificação, que ocorreria apenas na metade do século XIX. Foram as ricas doações de oliveiras feitas à Igreja Católica, estabelecida no século II. Os prováveis doadores foram os longobardos (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lombardos), normandos (https://pt.wikipedia.org/wiki/Normandos), suevos (https://pt.wikipedia.org/wiki/Suevos) e Angioini (https://it.wikipedia.org/wiki/Angioini) tendo como objetivo reativar o comércio de óleo.

No século XIV o azeite já havia assumido o papel de principal condimento no sul da Europa, em especial na Itália, em contraposição ao norte da Europa onde a gordura de origem animal é que estava disponível, pois resultava do consumo de porcos na alimentação.

No século XVIII ocorreu a catalogação e classificação das oliveiras das azeitonas conforme suas origens. Ainda no mesmo século a Liguria e Toscana se desenvolvem ainda mais na olivicultura.

No século XIX o sul da Itália já estava tomado pelas oliveiras. As regiões da Liguria e Toscana, mais ao norte já haviam sido conquistadas. Dessa vez foi a Úmbria, e algum tempo depois tornou-se um dos principais produtores de azeite até o século XX.

Nos dias de hoje quase todas regiões da Itália produzem azeite. As exceções são apenas Piemonte, Valle D’Aosta e Trentino-Alto Adige (Bolzano) que não produzem, ou é insignificante o volume produzido.

VIM, VI, VENCI

Não temos como negar o sucesso da olivicultura na Itália, mesmo com afirmações exageradas de ser o “centro do mundo da olivicultura”, “que somente a Itália possua variedades excelentes”, e daí por diante.

Foi a civilização que nos tempos fundamentais proliferação da cultura mais escreveu sobre as oliveiras na época de seu

Caio Plínio II – Naturalista, além de Escritor, historiador, gramático, administrador e oficial romano) que viveu entre os anos 23 e 79. Autor da obra “De Re Rustica”, chegou a catalogar como existentes 15 variedades.

Virgílio poeta romana, 5 de outubro de 70 AC — Brundísio, 21 de setembro de 19 AC, em sua obra Geórgicas:

Ao contrário da videira, a oliveira não requer cultivo, e nada aguarda a poda recurva ou as enxadas tenazes, uma vez que adere à terra e sustenta os golpes do céu sem se enfraquecer. Por si só, a terra, aberta com o arado, já oferece umidade suficiente para as várias plantas e dá bons frutos quando a grelha é usada adequadamente. Cultivai, ó lavrador! A oliveira, que é agradável à paz.

Lucrécio (Tito Lucrécio Caro) no século I AC no seu livro “De Rerum Natura“:

Dia a dia, obrigou as florestas de volta para as montanhas e dar as terras baixas culturas, a fim de ter vinhas exuberantes nas colinas e planícies e a mancha azul de azeitonas, de pé, possam propagar nos campos, desfiladeiros, vales e planícies.

Lúcio Júnio Moderato, Vulgo Columela, 4 d. C. – Tarento, 70 d. C.Cadiz, escritor agronômico romano, autor dentro outros de “De Re Rustica” e “De arboribus”, onde citava:

“…quem lavra o olival pede-lhe fruto; quem o estruma pede-lhe com muita insistência; quem o poda obriga-o a dar azeitona…”

Também junto a civilização romana é que foi desenvolvida a primeiro instrumento de extração de óleo por meio de prensagem: a “Trapetum”.

Com algumas adaptações, o conceito permanece nos moedores de azeitonas a pedra modernos.

Outro mérito da Itália diz respeito incentivo da cultura na Espanha. A despeito dos primeiros pés de oliveira terem chegado através dos comerciantes Fenícios, somente com a invasão de Roma, em uma das fases das Guerras Túnicas, e sua exploração do sul como uma província que fornecia metais e produtos agrícolas, é que a produção de azeitonas deslanchou. O vale do Rio Guadalquivir que passa por Sevilla, e a cidade de Jaén foram os principais beneficiados. Hoje Jaén produz um terço de todo azeite da Espanha, o que representa um sexto de todo o mundo.

Hoje na Itália

O número estimado de oliveiras na Itália em 2008 era de 150 milhões de árvores, distribuídas  em uma área de 1.165.458 hectares. Esses números não consideram as mais recentes plantações intensivas e superintensivas.

Ainda em 2008 as regiões com maior quantidade de fazendas produzindo azeitona/azeite, eram:

  • Puglia:267.203;
  • Sicília 196.352;
  • Calábria: 136.016;
  • Campania: 112.093.

É o país com a maior quantidade de cultivares registrado. São 633 cultivares de um total de 1.814 considerados. Isso representa quase 35% do total. Muitos contabilizam “apenas” 538 cultivares devido a muitos serem raros, apesar de registrados. Dentre os 538, muitos são regionais com pouca difusão.

Observação: Existem questões relacionadas a viabilidade, importância econômica de cada cultivar, que fará parte de uma publicação específica. Contudo é importante ressaltar o notável o interesse do país ao longo dos séculos em aprimorar e especializar variedades.

Três regiões na Itália somam 85 % de todo azeite produzido na Itália: Puglia, Calábria e Sicília. É 85% de todo azeite do país que produz anualmente de 600 a 700 mil de toneladas, sendo dois terços extra virgem. Ainda 39 com DOP e 1 IGP, todos reconhecidos pela União Européia.

Na Puglia encontra-se Bitonto, conhecida como a “cidade das oliveiras”.

  1. Puglia 35,16%
  2. Calábria 29,54%
  3. Sicília 9,96%
  4. Campânia 7,39%
  5. Nova Iorque 4,17%
  6. Abruzzo 3,87%
  7. Toscana 3,32%
  8. Úmbria 1,2%
  9. Molise 1,9%
  10. Basilicata 1,9%
  11. Ligúria 0,94%
  12. Marcha 0,86%
  13. Sardenha 0,84%
  14. Veneto 0,23%
  15. Emilia-Romagna 0,16%
  16. Lombardia 0,13%
  17. Tirol Meridional (Trento) 0,042%
  18. Friuli-Veneza Giulia 0,007 %
  19. Piemonte 0,001%
  20. Valle d’Aosta 0,0%
  21. Trentino-Alto Adige (Bolzano) 0,0%

CULTURA DA OLIVEIRA NA ITÁLIA

As oliveiras estão fortemente inseridas na cultura italiana, desde a culinária a religião, nesta última talvez por ser a “pátria do catolicismo” e o antigo testamento está repleto de menções às oliveiras, bem como no novo testamento. As consideradas mais sagradas estão em Jerusalém, no jardim de Getsêmani onde Jesus orou e foi capturado para iniciar o seu martírio.