O Getsêmani é um pequeno jardim urbano, um dos mais conhecidos de Israel – Jerusalém pelo ocidente. Possui 23 oliveiras – 8 muito antigas, e é citado nos livros de São Mateus, São Marco, São Lucas e São João no novo testamento, pois lá se deu o início da “Paixão de Cristo” que terminou com a crucificação de Jesus Cristo.
Observação: Existem teorias que contradizem que o Getsêmani seja o identificado atualmente como tal. Ou ainda que a sequência de eventos esteja errada. Vamos nos deter às versões mais aceitas e ainda não invalidadas por evidências claras.
Localização do Jardim do Getsêmani
O Jardim fica Leste na cidade de Jerusalém, nas coordenadas 31,779402° Norte e 35,240197° Leste.
Está na base do Monte das Oliveiras, que é uma pequena colina em Israel.
Significado dos nomes
Getsêmani significa “lugar onde se esmaga o azeite”, ou seja: lagar, ou prensa de azeite. Sua origem semântica vem do termo em aramaico, idioma falado na região na época da paixão de Cristo e pelo próprio Jesus (Yeshua bar Yoseph – Jesus filho de José*).
* Era comum na época, e até pouco tempo em diversos lugares, o conhecimento de uma pessoa passava por definir sua ascendência.
Observação: “Jesus filho de José” em Hebraico, a forma mais conhecida, é: Yeshua ben Yosephf.
O acontecimento mais conhecido
É impossível falar do jardim e seus arredores sem narrar suscintamente as horas que antecederam ao calvário de Jesus.
Para tanto publicamos um desenho esquemático dos principais pontos da narrativa.
Jesus participou da “última ceia” no Cenáculo (1) – local sala emprestada no monte Sião, onde ocorreu a lavagem dos pés dos discípulos. Nessa ocasião Jesus declarou que sabia quem o trairia. Após a ceia Jesus seguiu ao Jardim Getsêmani para orar, foi seguido pela maioria dos discípulos. Já no Getsêmani afastou-se com Pedro, Tiago e João*. Preso a mando de Califás, com apoio de Anás – Sumo Sacerdote do templo judaico (3). Após o primeiro julgamento perante o Sinédrio político na residência de Caifás, Jesus foi julgado novamente perante o Sinédrio religioso, provavelmente no Templo. Em seguida, ele foi levado a Pôncio Pilatos**, em seu pretório, dentro do palácio de Herodes (2), que o envio Jesus a Herodes Antipas, pois entendia que a motivação da prisão e possível julgamento era religiosa. Herodes devolveu Jesus a Pilatos que mediante a famosa escolha de Barrabás em detrimento de Jesus, vide comentários abaixo, Jesus para ser açoitado na Fortaleza de Antônia (4) e crucificado no Gólgota (5 ou 6).
Hoje ao lado do Jardim do Getsêmani encontra-se a Igreja de Todas as Nações, também conhecida como Basílica da Agonia, que fica dentro de uma seção de rocha onde Jesus teria orado antes de ser preso.
Observação: A primeira igreja no local foi construída no século IV D.C., durante o mandato de Constantino – Imperador romano que instituiu o cristianismo com religião oficial para o Império Romano. Quatro séculos depois essa igreja foi destruída, sendo erguido um novo prédio durante as Cruzadas (1096-1291), mas que foi abandonado em 1345. A edificação atual, patrocinada por 12 países, foi erguida entre 1919 e 1924.
* Segundo relatos bíblicos, Jesus estaria tomado de pavor quanto ao destino que lhe cabia, mas mesmo pedindo que Deus “afastasse esse cálice”, aceitou que a vontade Dele fosse feita. Nessa ocasião Pedro, Tiago e João, que lhe acompanhavam de forma mais próxima, tiveram de ser acordados três vezes, a despeito do pedido de Jesus para que orassem e vigiassem. Logo após a terceira aproximou-se Judas acompanhado de soldados romanos, escribas e outros representantes dos Sinédrio. Alguns interpretam a dificuldade dos três apóstolos próximos de seguirem o pedido de Jesus como uma demonstração de no momento da provação estaremos sós.
** Na época de Jesus a Judéia estava sobre controle do Império Romano e seu governador era Pôncio Pilatos. Não por acaso a prisão de Jesus se deu durante a Páscoa, desta forma isentava a liderança Judaica da condenação de Jesus, pois era um líder com muito adeptos, logo poderia causar revolta se fosse condenado pela própria igreja. Uma das funções de Pôncio Pilatos era julgar os criminosos, no caso de Jesus a acusação era heresia, o que não seria motivo para a execução. Não convencido das acusações contra Cristo, pois não era nenhuma voltada contra o Império Romano e suas leis, encaminhou-o a Herodes, que era governador da Palestina, uma das quatro regiões administrativas (tetrarquias) do Império Romano na região. Herodes se negou a julgar sob a alegação de ser Páscoa. Jesus foi levado de volta a Pilatos que pressionado pelo Sinédrio (assembleia judia de anciãos da classe dominante à qual diversas funções eram atribuídas como: políticas, religiosas, legislativas, jurisdicionais e educacionais), tentou ainda uma última saída. Convencido da não culpabilidade de Jesus, e para evitar atrito com a liderança judaica (que já era extremamente complicada pela insatisfação pelo domínio Romano), pois a decisão na mão do povo presente no local. O problema é que os judeus já haviam convocado (pago) a participarem de um possível julgamento popular. Nessa ocasião Barrabás, ladrão condenado e sem a menor simpatia entre o povo da Judéia, menos ainda com os presentes, foi salvo em detrimento de Jesus. Fica o entendimento que assim que deveria ser.
Citação do nome e a presença de oliveiras
Getsêmani aparece no original grego do Evangelho de Mateus e no Evangelho de Marcos como Γεθσημανή (Gethsēmanē). O nome é derivado do aramaico ܓܕܣܡܢ (Gaḏ-Šmānê), que significa “prensa de óleo”.
Em Mateus 26:36 e Marcos 14:32 o chamam de χωρἰον, significando um lugar ou propriedade.
O Livro de João diz que Jesus entrou em um jardim (κῆπος) com seus discípulos.
As primeiras referências a existência de olivieras no Jardim ocorre no século XV através do historiados romano Tito Flavius Josephus (37-100 D.C.). Tito relatou que durante um cerco a Jerusalém no primeiro século da era cristã, o imperardor Vespasiano mandou que o exército arrasassem a terra destruindo hortas, plantações e árvores frutíferas.
Há de supor que nem todas as árvores foram derrubadas, pois existem indivíduos com mais de 600 anos no Jardim. Por outro lado o nome Getsêmani (lagar de azeite), sugere que ao menos próximo haviam oliveiras, pois, principlamente naquela época não faria sentido instalar uma presa de azeitonas sem um produção nas redondezas.
Outra opinião, neste caso de Raffaella Petruccelli – Trees and Timber Institute / Florença – bem como de outros colegas do mesmo instituto, sugere que as oliveiras podem não ter sido relevantes aos historiadores e escritores da época.
Estudos conduzidos por Raffaella Peruccelli e seus colegas, indicam que a genética dos oito exemplares do Jardim do Getsêmani provém da mesma matriz, ou seja: são descendentes de uma mesma árvore. Os estudos focaram no pólen, folhas e frutos. Em 2012 outro estudioso, o arqueólogo italiano Mauro Bernabei, chegou a conclusão através de estudos dendrocronológicos e de datação por carbono 14, de que, ao menos três das árvores do Jardim do Getsêmani, são do século XII D.C., mais especificamente dos anos de 1092, 1166 e 1198. Os resultados sugerem que as árvores teriam sido plantadas após a tomada de Jerusalém pelos Cruzados que também reconstruíram ou restauraram vários prédios religiosos na região, assim como a Igreja da Agonia, como já visto anteriormente.
Mais um fator de incerteza…
Mauro Bernabei leva em consideração: “Todos os troncos das árvores estão ocos por dentro, logo a madeira central – mais antiga – está faltando! No final, apenas três de um total de amostra de oito oliveiras puderam ser datadas com sucesso. As demais cinco oliveiras gigantes não puderam ser datadas. Wendy Babcox (artista interdisciplinar que vive e trabalha em Tampa, Flórida, onde é professora associada na Escola de Arte e História da Arte em Práticas Fotográficas e mídia relacionada na Universidade do Sul da Flórida) afirma que as raízes das árvores mais antigas são possivelmente muito mais velhas e, em seguida indica ser possivelmente correta a afirmação tradicional de que as árvores possuem mais de dois mil anos de idade.
Por fim, permanece a dúvida
Avaliando os resultados dos dois estudos acima, de Raffaella Petruccelli e Mauro Bernabei, mantém-se a incerteza quanto a Jesus ter se recolhido junto as ancestrais das árvores presentes no Jardim de Getsêmani. Até mesmo a correta localização do Jardim é questionável, pois a determinação ocorreu séculos depois dos fatos. A própria proximidade da cidade antiga de Jerusalém é um fator de dúvida, salvo a intenção de Jesus ter querido facilitar a sua captura.
“A primeira vez que eu vim para Jerusalém e por muitos anos depois, este local era aberto a todos quando desejassem vir para meditar sob as antiquíssimas oliveiras. Os latinos, porém, tomaram posse, nos últimos anos, de todo o lugar e construíram um muro à volta. Os gregos inventaram um outro lugar um pouco mais ao norte. Minha impressão é a de que ambas estão erradas. O local é muito perto da cidade e tão perto da grande via para o leste que o Senhor dificilmente o teria escolhido para seu retiro naquela perigosa e sombria noite. Estou inclinado a localizar o Jardim das Oliveiras em um vale fechado uma centena de metros a noroeste do atual Getsêmani”
Dr. Thomson, o autor de The Land and the Book
Cultivares do Jardim do Getsêmani
Não existe registro, ou estudo que defina o(s) cultivar(es) das oliveiras do Jardim do Getsêmani. Dado a idade e o cultivo restrito, podem ser um cultivar que se desenvolveu de forma independente. Só para lembrar: Variedade ≠ Cultivar. Veja: Variedade ou cultivar? Quando aplicar o nome corretamente? – OLIVAPEDIA.
Abaixo listamos os principais cultivares autóctones de Israel. Para saber mais, acesse: 44 países que produzem azeite que talvez você não saiba – Parte 3 de 5 – OLIVAPEDIA. Em breve uma publicação específica e mais detalhada apenas sobre a Olivicultura em Israel. Contudo, como Israel foi uma “invenção” de depois da Segunda Guerra mundial e a região era conhecida como Palestina, também listamos os principais cultivares da Palestina atual. Quanto ao olivicultura da Palestina, você pode acessar: Oliveiras pelo mundo: Palestina (فلسطين) – OLIVAPEDIA.
Outras plantas
Estão presentes rosas, margaridas, hibiscos e íris. Todo o jardim, oliveiras e demais espécies, são mantidas por frades franciscanos, atuais proprietários do Jardim.
Os lagares…
A pergunta que vem na sequência ao significado do nome Getsêmani é: Cadê o Lagar – prensa para produção de azeite?
Várias peças de lagares antigos forma encontrados na região, mas o mais importante de se ter em mente é que os métodos de extração de azeite há 2.020 anos atrás eram mais rudimentares. Contavam apenas com a força humana auxiliada por pesos de pedra e eventualmente força animal para o esmagamento das azeitonas. A grande maioria era “equipamentos” relativamente pequenos, mas exatamente por isso eram muitos e espalhados próximos as áreas de cultivo da oliveira.
Na época em torno do ano 0 (zero) nascimento de Cristo, o método consistia basicamente em expremer as azeitonas colocadas em um cesto, ou entre vários discos de material feito de palha. Esse material retinha a parte sólida deixando que o sulco escorresse para um recipiente de onde, após a água ter decantado, era recolhido o azeite.
Durante o período de dominação do Império Romano e posteriormente com Império Bizantino, o número de lagares contava-se aos milhares. A maioria era de propriedades privadas, mas também haviam “grandes instalações públicas” que produziam uma quantidade maior de azeite de azeite. Eram mais espaçadas e voltadas a venda do produto final a maiores distâncias.
Nas colinas de Golã, região situada há aproximadamente 120Km NNe de Jerusalém, já forma encontradas 109 lagares dentro de 58 instalações.
Evoluções dos lagares
Muitas inovações foram incorporadas posteriormente, mas essa é outra história a ser contada na Olivapedia.














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