Muito já foi falado, aqui e em outros lugares, sobre as vantagens do consumo do azeite extra virgem. Até mesmo dos benefícios do “apenas virgem” em diversas aplicações.
É a melhor opção, cru ou para fritura. A exceção é o óleo do abacate, contudo com paladar questionável.
Também é sabido que o azeite extra virgem possui um preço para aquisição no mercado maior que os óleos de sementes, muitas vezes proibitivo para uso constante para a maioria das pessoas. Nesse quesito o óleo do abacate não tem vantagem, pois possui um preço mais elevado.
Então, qual a evolução da cultura medida em hectares? É sabido que os olivais intensivos e superintensivos estão ganhando força, e que devem ser no futuro a principal forma de cultivo, aumentando a produção e barateando o custo final. Contudo é uma transição lenta devido ao investimento e condições de cultivo (terra plana, irrigação, maquinário, mudas em quantidade, etc.).
Diferenças entre a olivicultura e culturas de sementes para óleos
Antes de compararmos a evolução da área plantada de diversas culturas, cabe lembrar de algumas diferenças características entre os olivais e os campos de semente.
Nos países onde ocorre um maior consumo , ou ainda onde o consumo está aumentando, a escolha é feita pelo reconhecimento do valor do azeite, quer seja no sabor, quer seja nas qualidades nutricionais.
O principal meio de reduzir o custo de produção e disponibilização no mercado, é o aumento da produção. Essa é uma grande desvantagem das oliveiras, mesmo em olivais intensivos ou superintensivos, por quatro motivos:
1. Tempo de início de produção
Ao passo que os grãos produzem anualmente uma safra em sua capacidade máxima, em determinadas condições é possível obter-se até uma segunda s chamada de safrinha.
A oliveira, se precoce, começa a produzir com 3 anos, mas não em sua plenitude. Dando tudo certo isso deve ocorrer aos 10 anos.
2. Rendimento por hectare
Em um olival tradicional, o que pode ser considerado uma boa colheita são 1.500 Kg de azeitonas por hectares.
Em uma situação onde a técnica dominada, vários olivais são intensivos ou superintensivos e ainda com olivais que são sempre renovados a medida da necessidade, a produção por hectare pode ser muito maior, como por exemplo na Espanha onde em 2018 cada hectare rendeu 3.800Kg em média.
Na Itália, segundo maior produtor, a despeito de ser uma atividade antiga e possuírem olivais intensivos, a produção em 2018 ficou próxima de 1.640 Kg por hectare. Na Grécia a colheita foi de 1.120 quilos por hectares e na Tunísia de apenas 540 Kg por hectare, ambas no ano de 2018.
No caso do milho na Espanha, Itália e Grécia, em 2018, a colheita por hectare foi de: 11.920Kg, 10.970Kg e 14.208Kg, respectivamente. Não há cultivo de milho na Tunísia.

Curiosidade: O óleo de Canola é produzido a partir da Colza, uma semente originária da Índia, conhecida a 4.000 anos. Canola é um acrônimo que, dependendo da fonte, pode possui dois significados:
- “Can” (Canadá) + “ola” (óleo) = Canola > Associação de Colza do Canadá ; ou
- Can(adian) + o(il) + l(ow) + a(cid) = Óleo canadense de baixo teor de ácido > Free Dictionary.
3. Constância na produção
A produção de azeitonas não é constante. Sem falar de possíveis problemas climáticos ou balanceamento da terra, a maioria dos cultivares apresentam ciclos de produção – na maioria bianuais. Essa bianualidade, semelhante a do café, é conhecida e possível de ser reduzida com manejo da plantação, adubação e poda. Tanto que em olivais intensivos existe maior uniformidade de produção.
Isso não ocorre em plantações de ciclo anual, como milho, soja, girassol, etc.
4. Flexibilidade de mercado
As azeitonas, via de regra, possuem duas destinações: Azeitona de Mesa ou Azeite. Usos, como por exemplo produção de materiais de construção com o bagaço da azeitona, e alguma utilização industrial no ramo dos cosméticos, não são relevantes. Pelo contrário, seus “concorrentes mais diretos”, possuem uma enorme diversidade de uso, como veremos mais abaixo, o que dá flexibilidade ao produtor no momento da venda.
Pontos interessantes do mercado
- Nos últimos anos observou-se uma redução de consumo de azeite nos grandes consumidores tradicionais (Mediterrâneo),dentre eles a Grécia – maior consumo per capita. A crise econômica da Europa, iniciada nos anos 2.000 levou a mudança de hábito de consumo, trocando o azeite por outros óleos de menor preço, principalmente a Itália e a Grécia.
- Com a consolidação da Espanha como maior produtora mundial de azeite (+/- 50%), a Itália, tradicionalmente 2ª maior produtora, acabou se focando em produtos de mais alta gama. Aliado a isso a mesma não investiu na renovação de seus olivais: a grande maioria com mais de 50 anos. Outro ponto é a baixa densidade de oliveiras por hectare. Em 42% dos olivais são apenas 140 árvores por hectare.
- O despertar do consumo em países não tradicionais, por exemplo China e Estados Unidos, reorientou a produção a exportação.

As ocorrências acima somadas, e a constante evolução da mecanização dos campos de semente, traz como consequência uma pressão do mercado para reduzir o preço do azeite, pois seu valor ainda é muito mais elevado em comparação aos demais óleos.

Mesmo com a migração dos olivais tradicionais para os intensivos e superintensivos, que ocorre de forma muito lenta e alto custo, os olivais são menos produtivos que outras culturas e o processamento do fruto é mais complexo, começando pelo tempo da colheita ao tratamento. Ou seja: não pode ser estocado em natura.
Comportamento de consumo
Sempre que o azeite pesa no bolso do consumidor, agravado por uma crise econômica, o consumo migra a óleos de outra origem. Ainda, para a maioria da população de países não consumidores tradicionais (Espanha, Grécia, Itália, Portugal…) o uso do azeite permanece apenas para “molhar a salada”.

Um caso particular
Dentre os país nos quais a redução do consumo de azeite foi notada, o caso mais evidente é o da Grécia. A redução é fortemente influenciada pela entrada no mercado de outros óleos de preço, e qualidade, inferiores. O comportamento de consumo neste país fica claro por dois fatores: O primeiro ser um grande consumidor unitário, e o segundo a crise financeira que o assolou, e ainda atinge, por vários anos.

Apesar de um movimento de retorno ao campo ter ocorrido, justamente pela falta de emprego nas cidades, o consumo na Grécia não aumentou. O destino da aumento da produção foi a exportação, o que não é facilmente quantificado devido ao azeite exportado dentro da União Europeia não ser contabilizado pelo COI.
Outras dificuldades
Além dos pontos acima, existe também a questão da susceptibilidade de doenças e carências nutricionais das árvores que se mantêm expostas aos elementos naturais, inclusive pragas, 365 dias por ano. Por exemplo, uma plantação de milho brota, cresce, frutifica e é colhida em um ciclo médio de 110 dias. Quando um olival perde árvores, ou parte delas, devido a doença ou a fenômenos climáticos, o tempo de recuperação é muito maior que de uma cultura com ciclo mais curto, como milho, soja e girassol.
Comparando a evolução das culturas
A olivicultura, em todo mundo, continua crescendo em passos tímidos, sob a determinação dos apaixonados e nos que acreditam estarem produzindo um produto de qualidade superior.

Uma visão gráfica mais clara:

Como mencionado acima, a diversidade de usos possíveis para os óleos vegetais, de menor custo de aquisição, até mesmo para biodiesel, explica fundamentalmente o crescimento maior de quase todas as culturas se comparado com a olivicultura.
Uma análise mais profunda deverá considerar quanto dos olivais tradicionais estão migrando e dos novos quantos estão sendo formados no padrão intensivo – superintensivo. Tema futuro do nosso blog.
Variação em hectares
Abaixo a variação por país. Alguns números são suspeitos, quer seja por se tratar de país que geram informações propositalmente erradas, como o caso da China, quer seja por países que não conseguem, como o caso do Brasil.

Comparando ao crescimento populacional
Olhando o crescimento da população, a formação de novos olivais consegue um leva vantagem: 26,33% de crescimento dos olivais versus 22,635% da população no mesmo período (2001-2018).

A boa notícia
Apesar de um crescimento pequeno em termo de área plantada, o resultado em termos de produção de azeitonas foi bem melhor. Entre 1998 e 2018 foi observado um crescimento de 45,24%. Entre 2001 e 2018 o crescimento foi de 40,6% versus um aumento de área plantada de apenas 26,33%… …mas esse é um assunto para outra publicação!
Referências:
Todas os dados forma obtidos através da FAOSTAT, exceto aqueles cuja fonte foi explicitada no corpo do texto ou figura.










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