Capa: Chemlali Zarzis – Foto Société Chemlali Agricole-Zarzis
Nessa publicação conheceremos um pouco mais sobre quatro cultivares autóctones da Tunísia.
O grupo Chemlali representa o núcleo genético mais importante da olivicultura tunisiana, especialmente adaptado a ambientes áridos e semiáridos, com elevada tolerância à seca, solos pobres e regimes irregulares de precipitação. Embora frequentemente tratado como um único cultivar, Chemlali constitui um complexo varietal com ecótipos (ecótipo) regionais bem definidos, entre os quais se destacam Chemlali.

A Chemlali é uma das duas variedades populares de oliveiras na Tunísia (a outra é a Chetoui). Uma característica da Chemlali é que as árvores devem ser plantadas com uma distância mínima de 22 a 24 metros entre si, devido ao comprimento que suas raízes atingem. Assim, as oliveiras Chemlali também podem prosperar com pouca chuva, o que pode, dependendo da região, dispensar o uso de irrigação. Abaixo um tabela desse grupo de cultivares, sendo a maioria de menor importância econômica (3 ou 4), logo não sendo alvo em um primeiro momento de publicação pela Olivapedia. Os cultivares sombreados na tabela são os que veremos nessa publicação.

Observação:
Algumas fontes divergem quanto ao grau de importância dos quatro cultivares Chemlali em destaque, o que, segundo demais levantamentos a seguir, faz mais sentido.
- Chouamekh: Minoritário / patrimonial (4)
- Sfax: Cultivar principal (1)
- Tataouine: Cultivar minoritário (3)
- Zarzis: Cultivar secundário (2)
A Olivapedia prioriza a publicação de cultivares com graus de imoportãncia 1 e 2, contudo, devido a importância da variedade Chemlali, publico esses 4 cultivares, inclusive pelas suas semelhanças.
Observação sobre demais Chemlalis
Apesar de alguns cultivares carregarem o nome “Chemlali”, não pertencem ao mesmo Ecótipo, por exemplo:
Chemlali Sig
- Origem: Sig (Argélia)
- Situação: ambígua, mas não Chemlali tunisiano
- Normalmente classificado como:
- cultivar local argelino, ou
- sinonímia histórica incorreta
- Não aceito como Chemlali pelo COI.
Chemlali Gafsa
- Origem: região de Gafsa (Tunísia centro-oeste)
- Situação: controversa
- Em muitos trabalhos:
- tratado como nome local genérico,
- ou mistura de ecótipos,
- não estabilizado como cultivar reconhecido.
Não é consenso como membro formal do grupo Chemlali.
Síntese comparativa
- Chemlali Chouamekh – Ecótipo local do centro‑sul; menor difusão, interesse patrimonial. É frequentemente confundida com Chemlali Zarzis devido ao seu fruto e folhas longas. Cultivada em ambientes áridos.
- Chemlali Sfax – Referência nacional; maior difusão, produtividade estável e azeite suave. Frutos agrupados, mesmo em cachos de até 20 frutos. Azeite muito característico em seus parâmetros. Muito rústica e adaptada ao ambiente árido, remontando à sua origem muito antiga, com cultivo em uma área semiárida com chuvas de 80 a 350 mm. Como exemplo, há registro de uma única árvore ter produzido 1.000 quilos de azeitonas.
As fontes para a produção de até 1.000 kg da variedade Chemlali baseiam-se em registros técnicos de exportadores como a Yakelos e estudos sobre o plantio tradicional em Sfax, na Tunísia. Relatos históricos da árvore monumental Zaytounet Lakarit corroboram com colheitas maiores que uma tonelada em anos excepcionais.
Dados de congressos de olivicultura e do Olive Oil Times descrevem como o vigor dessa árvore e o espaçamento de 24m x 24m permitem uma altíssima produtividade.
Observação: Esses dados não são provenientes de estudos acadêmicos publicados, nem de estatísticas oficiais de agricultura ou olive oil research (FAOSTAT, COI, ISHS, etc.). logo podem ser apenas relatos populares ou de turismo/folclore, frequentemente repetidos em sites de viagens ou blogs regionais.
- Chemlali Tataouine – Ecótipo do extremo sul da Tunísia; rusticidade máxima, produção mais irregular. Adaptada a condições áridas. Normalmente cultivada até atingir vários metros de altura e tamanho considerável. Sua aparência é um tanto semelhante à da Chemlali Zarzis, mas o fruto não.
Chemlali Zarzis – Ecótipo mais adaptado ao sul costeiro; azeite ainda mais delicado. A aparência da árvore é um tanto semelhante à de Chemlali Sfax.
Principal propósito de cultivo

Origem e locais de cultivo
Origem: Tunísia, domesticação antiga associada à expansão fenícia e romana, com diferenciação local por isolamento ecológico.


Locais secundários de cultivo da Chemlali de Sfax
Destaco o Sfax, pois é o único com difusão relevante dentre os 4 cultivares desta postagem.
Na Tunísia: Ain Jloula, Central Tunisia, Enfida, Gabès, Gabes, Hammamet, Korba, Krib, Maknassy, Mornag, Nabeul, Oueslatia, Sahel, Sbeitla, Sidi Bouzid, Teoburba e Soliman.Fora da Tunísia: Al Alexandria (Egito), Al Mowsil (Iraque), Al Qusbat (Liga Árabe Líbia), Bagdá, (Iraque), Bourg el Arab (Egito), Califórnia (Estados Unidos), Israel (Israel), Rioja (Argentina), Misrata (Líbia), Marrocos (Marrocos), Nova Zelândia (Nova Zelândia), Ninawa (Iraque), Trípoli (Líbia) e Yefren (Líbia).
Área de plantio
Estudos agronômicos indicam que a área total de olivais na Tunísia é aproximadamente 1,6–1,8 milhões de hectares, sendo que a Chemlali domina o olival tunisino, ocupando mais de dois terços da área total e sendo responsável por >60 % da produção de azeite.

Polinização

Observações:
1) AE = Autoinfértil (autoestéril).
A flor não se fecunda com o próprio pólen.
Precisa de outro cultivar compatível.
2) AI = Autoincompatível.
Refere-se a um mecanismo genético específico (sistema de incompatibilidade).
Pode ocorrer: dentro do mesmo cultivar ou entre cultivares geneticamente próximos.
Em oliveira, o termo AI é usado com cautela, porque o sistema não é tão rígido como em Prunus, por exemplo.
3) Autopolinização – Chemlali Sfax): Algumas fontes técnicas (catálogo varietal do COI) descrevem o Chemlali Sfax como “comportamento autofértil”, indicando capacidade de frutificação com o próprio pólen. Essa classificação não implica autossuficiência produtiva plena, mas sim que o cultivar não é estritamente autoestéril. Evidência adicional indireta vem de trabalhos de melhoramento que relatam obtenção de progênies viáveis por autopolinização de Chemlali Sfax. No entanto, ensaios formais comparativos de compatibilidade floral mostram que a polinização cruzada (ex.: Chetoui, Zarrazi) continua sendo necessária para frutificação regular e rendimento estável em condições de campo.
Morfologia e comportamento
Apesar dos traços comuns (árvores rústicas, frutos pequenos a médios, azeites suaves), esses cultivares diferem de forma consistente em produtividade, morfologia do fruto e caroço, comportamento reprodutivo, rendimento em azeite e perfil sensorial. Então vamos por partes.

Árvore

Rendimento médio por árvore adulta
Os valores abaixo representam colheita em ano de não alternância (produtivo) e uma média de pomares com árvore de diversos portes.

Folha
Não são encontrados muitos registros sob esse aspecto dos Chemlali. Apenas para a Sfax alguns dados estão disponíveis. Entendo que para demais cultivares não deva diferir muito devido a semelhança morfológica.

Observação: O cultivar Tataouine possui de folha lanceolado.

Fruto
Os frutos também são pouco documentados.

Caroço
Apenas o caroço do Sfax possui alguma documentação.


Cor para colheita – Quatro cultivares

Resistências bióticas e abióticas

Observação: resistências 1=muito baixa, a 5=muito alta.
Características dos azeites (síntese)
Pontuações expressas em uma escala relativa de 1 a 10 dentro do contexto sensorial tunisiano. Essas medidas ocorrem por meia em um painel de degustação e referem-se ao apresentado em um ano específico de colheita, mas servem como referência.
Os óleos de Chemlali são caracterizados por baixo amargor e picância, com doçura dominante, especialmente em populações costeiras do sul, como os Zarzis.

Rendimento na extração do azeite


Caracterísiticas físico‑química (médias) dos azeites

Para melhor compreender o que representa cada componente, sugiro acessar https://olivapedia.com/azeite-parte-ii-composicao/
Característica complementares do azeite da Chemlali Sfax
Cor da amostra examinada: Amarelo
Sabor do óleo: Doce
Ácido araquídico: Médio / Ácido beênico: Alto / Ácido eptadecanoico: Baixo / Ácido eptadecenoico: Baixo / Ácido lignocérico: Médio / Ácido linolênico: Médio / Ácido oleico: Baixo / Ácido palmítico: Alto / Ácido palmitoleico: Médio / Ácido esteárico: Médio.
Características complementares do azeite da Chemlali Tataouine
Ácido oleico (C18:1): 70% / Ácido linoleico (C18:2): 7% / Ácido palmítico (C16:0): 16%
Características complementares do azeite da Chemlali Zazis
Ácido araquídico Médio / Ácido behênico Alto / Ácido eptadecanoico Alto / Ácido eptadecenoico Alto / Ácido lignocérico Médio / ácido linoleico (C18:2): 7% / Ácido oleico (C18:1): 69% / Ácido palmítico (C16:0): 17% / Ácido palmitoleico Alto / Ácido esteárico Médio.
Azeitona de mesa – físico‑química
Uso marginal nos quatro cultivares; polpa fina, relação polpa/caroço desfavorável, baixo interesse industrial.
Considerações finais
Os Chemlali constituem um patrimônio genético estratégico para a olivicultura de climas áridos. Embora frequentemente subestimados do ponto de vista sensorial, oferecem estabilidade produtiva, resiliência climática e azeites adequados a blends equilibrados. A diferenciação entre Sfax, Zarzis, Tataouine e Chouamekh é essencial para programas de manejo, conservação e valorização territorial.
Fontes
Institut de l’Olivier (IO), Tunísia
Catalogues des variétés d’olivier en Tunisie
– Publicações técnicas e fichas varietais oficiais
– Base primária para classificação oleícola/mesa
COI – Conseil Oléicole International
World Catalogue of Olive Varieties
– Monografias varietais
– Classificação funcional (oleícola, dupla aptidão, mesa)
FAO / CIHEAM
Olive Germplasm – The Olive Tree: Genetic Resources and Breeding
– Tipologia de uso
– Contexto agronômico mediterrânico
Hannachi, H. et al. (2007–2010)
– Genetic characterization of Tunisian olive cultivars
– Morphological and agronomic diversity of olive trees in Tunisia
– Estudos-chave sobre Chemlali e variantes regionais
Trabelsi, S. et al.
– Trabalhos sobre produtividade, peso do fruto e rendimento em azeite
– Populações tradicionais do centro e sul da Tunísia
Office National de l’Huile (ONH), Tunísia
– Relatórios técnicos e estatísticas setoriais
– Uso econômico predominante dos cultivares
ISHS – International Society for Horticultural Science
– Proceedings sobre oliveira em ambientes áridos e semiáridos
– Relação morfologia × uso
Barranco, D.; Rallo, L.; Caballero, J.M.
Variedades de olivo en España y en el mundo
– Referência comparativa para classificação funcional
Nota importante (clareza científica)
- Não existem fontes que publiquem percentuais exatos anuais por cultivar (ex.: 95% azeite / 5% mesa).
- Essas fontes sustentam classificações funcionais consolidadas, amplamente aceitas em agronomia e em documentos COI/FAO.






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