— História, cultivares, regiões e produção contemporânea —

Capa Olival sequeiro no Ajantejo – Foto: Rádio Campanário

Portugal é hoje o sexto maior produtor mundial de azeite e o terceiro maior exportador da União Europeia. Por trás destes números está uma história de mais de dois mil anos, dezenas de variedades de oliveira nascidas no próprio território, seis regiões com Denominação de Origem Protegida e uma transformação produtiva profunda que, em pouco mais de duas décadas, reposicionou o país no mapa mundial do azeite virgem extra de qualidade. Esta publicação percorre essa trajetória, do plantio das primeiras oliveiras nas terras lusitanas até aos prémios internacionais conquistados nas últimas safras.

Origens: antes de Portugal existir

A oliveira chegou à Península Ibérica muito antes da existência de Portugal como nação. As primeiras introduções da espécie Olea europaea na região atribuem-se aos fenícios, povo navegador do Mediterrâneo Oriental, ainda no segundo milénio antes de Cristo. Foram eles, juntamente com os gregos, que propagaram a árvore pelas costas do sul ibérico, levando consigo as técnicas básicas de cultivo e de extração do óleo da azeitona.

Greek and Phoenician colonization and trade in the Mediterranean and Black Sea
Colonização e comércio Grego e Fenício no Mediterrâneo e Mar Negro

A própria palavra “azeite” guarda essa herança: deriva do árabe az-zait, que significa “sumo de azeitona”. Já a designação científica Olea europaea resume a profunda ligação da árvore à bacia mediterrânica, onde encontrou clima e solo perfeitos para se naturalizar.

Para saber mais: Origem da cultura das Oliveiras

Foi com a chegada dos romanos, a partir do século III a.C., que o cultivo da oliveira ganhou escala industrial no território da atual Portugal. Mais do que expandir a área plantada, os romanos aperfeiçoaram as técnicas agrícolas — introduzindo a enxertia — e desenvolveram lagares mais eficientes, equipados com prensas de viga e contrapeso que se manteriam em uso, com pequenas adaptações, durante quase dois mil anos. O azeite deixava assim de ser um produto meramente local para integrar um sistema organizado de plantio, extração e armazenamento.

A qualidade do produto não passou despercebida aos cronistas da época. O geógrafo Estrabão e o naturalista Plínio, o Velho, deixaram registos elogiosos sobre o azeite produzido no sul da Lusitânia, em especial o do Alentejo Interior, exportado em ânforas cerâmicas para Roma. Ainda hoje, vestígios arqueológicos dessa atividade — lagares, pesos de prensas, estruturas de armazenamento e fornos de ânforas oleárias — espalham-se por todo o Alentejo e pela Beira Interior, testemunhando uma produção em larga escala.

Com o passar do tempo, a Península Ibérica tornou-se uma das principais fornecedoras de azeite do Império Romano. Um dos indícios mais contundentes desse fluxo comercial é o Monte Testaccio, em Roma: uma elevação artificial formada por milhões de fragmentos de ânforas descartadas, muitas delas vindas das regiões produtoras da Hispânia e usadas justamente no transporte do azeite.

Modelo Dressel 20 e "Cemitério de Ânforas"
Modelo de ânfora Dressel 20 e depósito de ânforas usadas – Monte Testácio

Os Visigodos e a Continuidade da Cultura

Após a queda do Império Romano, os visigodos herdaram e mantiveram a tradição olivícola. O Código Visigótico, conjunto de leis que vigorava na Península Ibérica nos séculos VI e VII, demonstra a importância económica e simbólica da oliveira: previa multa de cinco soldos a quem arrancasse uma oliveira alheia, valor superior ao aplicado a outras árvores frutíferas.

A Influência Árabe e a Era dos Forais

A presença muçulmana na Península, entre os séculos VIII e XIII, trouxe novas variedades, sistemas de irrigação e técnicas refinadas de extração. O vocabulário luso-árabe que ainda hoje usamos, como “azeite”, “azeitona”, “almazém” ou “alqueire”, testemunha essa contribuição duradoura.

Após a Reconquista da península Ibérica e fundação do Estado português em 1143 com a assinatura do Tratado de Zamora, sendo sua independência confirmada pelo Papa Alexandre III em 1179, os reis portugueses promoveram ativamente a olivicultura. Os forais concedidos a localidades como Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer do Sal incluíam disposições específicas sobre a oliveira e os lagares. Em 1392, em Évora, lavrou-se o que se considera ser a primeira regulação portuguesa do ofício de lagareiro, estabelecendo deveres, direitos e padrões mínimos de qualidade.

Da Idade Moderna à Industrialização

Durante os séculos XV e XVI, com a expansão marítima, o azeite tornou-se um dos primeiros produtos exportados por Portugal, embarcando para as colónias e para outros mercados europeus. Os monopólios de lagares, então nas mãos de senhores donatários e de ordens militares e religiosas, geraram, contudo, várias queixas e travaram o crescimento do setor durante longos períodos.

Mesmo assim, e apesar de processos de fabrico ainda rudimentares, o azeite português conquistou prémios internacionais já no século XIX, com destaque para a distinção obtida na Exposição Universal de Paris de 1889.

O Século XX: Quebras, Adesão Europeia e Renascimento

Nas décadas que antecederam a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1986, a produção nacional de azeite oscilava fortemente, ano a ano, e estava em queda estrutural. A título de exemplo, em 1982 produziram-se cerca de 79 mil toneladas, enquanto em 1983 a produção caiu para apenas 8,8 mil. À data da adesão, o país contava com cerca de 340 mil hectares de olival, maioritariamente concentrados no Alentejo, mas também com áreas significativas em Trás-os-Montes, Beira Interior e Ribatejo.

A virada decisiva chega no início do século XXI, com o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, no Alentejo, que disponibilizou água de regadio em larga escala e tornou possível a expansão dos olivais intensivos e em sebe. Em 1999, apenas 2% do olival português era intensivo. Hoje, o olival moderno (intensivo e superintensivo) representa cerca de 63% da área plantada para azeite, com Portugal a passar de importador líquido para exportador líquido a partir de 2011.

As Variedades Portuguesas de Oliveira

Um Património Genético Vasto

Portugal é um dos países do mundo com maior diversidade varietal de oliveira. O Registo Nacional de Variedades de Fruteiras de 2022 lista 65 variedades cultivadas em território nacional, entre destinadas à produção de azeite, à conserva de mesa ou a uso misto. Boa parte dessas variedades é autóctone, fruto de séculos de seleção empírica feita por agricultores em diferentes microrregiões.

Quadro principais cultivares portugueses

As Cultivares Tradicionais Mais Importantes

Galega Vulgar

É a variedade portuguesa por excelência, considerada 100% nacional e a mais difundida em todo o país. Está presente sobretudo na Beira Interior, Ribatejo, Alentejo e Algarve, onde representa, em algumas regiões, perto de 80% da superfície de olival tradicional. A árvore tem porte médio, é tolerante à seca, mas sensível ao frio, à salinidade e ao calcário ativo.

O fruto é pequeno e ovoide. O azeite resultante é suave, com aromas frutados delicados, notas de maçã e amêndoa, doçura marcante e amargor e picante muito ligeiros. Quando colhida verde, dá origem a azeites com toques subtis de amargo e picante; quando colhida madura, aproxima-se de aromas de frutos secos. É também muito apreciada como azeitona de mesa pela facilidade de separação entre polpa e caroço.

Cobrançosa

Originária de Trás-os-Montes, a Cobrançosa expandiu-se nas últimas décadas para todo o país, sendo hoje uma das variedades mais plantadas em olivais intensivos do Alentejo. É muito produtiva e regular, tolera bem o frio e os solos calcários, mas é sensível à seca e à salinidade. O rendimento em azeite ronda os 18 a 22%.

Dá origem a azeites equilibrados, com aromas frescos de erva verde, tomate e folhas de oliveira, amargor e picante harmoniosos e notável estabilidade oxidativa. Está incluída em quatro DOP: Trás-os-Montes, Beira Alta, Norte Alentejano e Alentejo Interior.

Verdeal Transmontana e Verdeal Alentejana

A Verdeal Transmontana é típica da Terra Quente Transmontana, enquanto a Verdeal Alentejana ocupa áreas significativas no sul. Ambas têm porte médio, frutos de boa dimensão e excelente capacidade de adaptação a frio e seca. Como o nome indica, mantêm-se verdes até ao final da campanha, o que se reflete no perfil dos azeites: marcadamente frutados, persistentes, com notas de folha verde e equilíbrio entre amargor e picante.

Madural

Variedade transmontana de produção média, frequentemente associada à Cobrançosa e à Verdeal nos lagares do Norte. Produz azeites de aroma ligeiramente amendoado, doces e com amargor moderado.

Cordovil de Serpa e Cordovil de Castelo Branco

Duas cultivares distintas, mas com origem no mesmo tronco varietal. A Cordovil de Serpa, do Baixo Alentejo, produz frutos de grande dimensão e azeites apreciados pelo elevado teor de ácido oleico, com amargor e picante intensos e sensações marcadas de folha verde. A Cordovil de Castelo Branco é peça essencial dos azeites da Beira Interior.

Negrinha do Freixo

Variedade exclusiva do nordeste transmontano, sobretudo do concelho de Freixo de Espada à Cinta. Destina-se principalmente à conserva de mesa, em particular à célebre azeitona de mesa preta da região, mas também entra em alguns lotes de azeite com DOP Trás-os-Montes.

Outras Variedades Tradicionais Relevantes

Carrasquenha de Elvas, Azeiteira, Blanqueta, Redondil e Lentisca completam o leque das variedades autóctones com expressão regional, presentes nos cadernos de especificações das diferentes DOP.

Variedades Estrangeiras nos Novos Olivais

A expansão dos olivais intensivos e superintensivos trouxe ao território português variedades de origem espanhola e grega, escolhidas pelo seu desempenho em sistemas de alta densidade e colheita mecanizada:

  • Arbequina (espanhola, da Catalunha) domina os olivais superintensivos pela sua entrada precoce em produção, baixo porte e adaptação à colheita com máquinas cavalgantes. Dá azeites suaves, frutados, com notas de maçã e amêndoa.
  • Arbosana (também espanhola) é frequentemente plantada em conjunto com a Arbequina, conferindo lotes mais robustos.
  • Picual (originária da Andaluzia) destaca-se em olivais intensivos do Alentejo. Produz azeites mais amargos e picantes, muito ricos em polifenóis e com elevadíssima estabilidade oxidativa.
  • Koroneiki (grega) é introduzida sobretudo em olivais superintensivos e dá origem a azeites intensos, frutados verdes, muito aromáticos.

Os Três Sistemas de Cultivo

O olival tradicional corresponde a plantações de baixa densidade (entre 60 e 200 árvores por hectare), em sequeiro, frequentemente com oliveiras centenárias e podas de copa aberta. Ocupa cerca de 140 mil hectares no país, ou 37% da área total, com maior expressão na Beira Interior e em Trás-os-Montes. É o sistema com menor produtividade por hectare, mas associado à maior riqueza varietal e paisagística.

O olival intensivo apresenta densidades entre 200 e 600 árvores por hectare, geralmente regadio e podado para colheita mecânica com vibradores. Predomina em zonas do Alentejo e do Ribatejo onde havia já produção tradicional reconvertida.

O olival superintensivo ou em sebe é o sistema mais recente e produtivo, com 1.500 a 2.500 árvores por hectare, plantadas em filas estreitas (entre 1,5 e 4 metros) à semelhança da vinha de cordão. É colhido por máquinas cavalgantes e exige variedades de baixo porte como Arbequina, Arbosana e Koroneiki. Em conjunto, intensivo e superintensivo somam cerca de 111 mil hectares, ou 30% da área total nacional, o que representa hoje cerca de 63% do volume de azeite produzido.

Distribuição por Região

Alentejo — Concentra cerca de 165 mil hectares de olival e é responsável por 70 a 76% da produção nacional de azeite. É o palco da transformação para olival moderno, com mais de 100 mil hectares de intensivo e superintensivo na zona do Alqueva. As variedades dominantes são Galega, Cobrançosa, Cordovil de Serpa e Verdeal Alentejana entre as tradicionais, e Arbequina, Arbosana e Picual nos sistemas modernos.

Trás-os-Montes — Núcleo histórico da olivicultura portuguesa do Norte, concentrado na chamada Terra Quente Transmontana. É a segunda maior região produtora. Predominam variedades quase exclusivamente tradicionais: Cobrançosa, Madural, Verdeal Transmontana, Galega, Cordovil e Negrinha de Freixo, em sistema sobretudo tradicional, em encostas de xisto.

Centro (Beira Interior, Beira Litoral) — Cerca de 65 mil hectares, ou 18% da área nacional. Variedade predominante: Galega Vulgar. Sistema majoritariamente tradicional, em socalcos e pequenas explorações familiares.

Ribatejo — Inclui Abrantes, Santarém, Torres Novas e Tomar. Coexistência de olivais tradicionais centenários e novos olivais intensivos. Variedades de eleição: Galega, Cobrançosa e Cordovil.

Algarve — Produção mais discreta, com forte presença da Galega e algumas plantações modernas no Sotavento.

Infográfico áreas de plantio e produção

A Produção Atual em Números

Volume e Posição Mundial

A campanha 2024/2025 atingiu cerca de 177 mil toneladas, a segunda maior produção de sempre em Portugal. A campanha 2025/2026, marcada por um ano de contrassafra e por condições climáticas adversas — temperaturas elevadas no verão seguidas de forte pluviosidade —, deverá fixar-se em torno das 160 mil toneladas, uma quebra de aproximadamente 10% face à anterior. Em média, o país produz hoje entre 140 e 180 mil toneladas anuais, valor muito superior à média histórica do final do século XX.

Portugal ocupa atualmente a quinta a sexta posição no ranking mundial de produção (variável conforme a campanha e a fonte), atrás de produtores como Espanha, Itália, Grécia, Turquia e Tunísia, cuja ordem se altera consoante o ano. É também o quarto maior produtor europeu, depois de Espanha, Itália e Grécia, e um dos principais exportadores da União Europeia.

Lagares, Marcas e Tecido Empresarial

O setor reúne mais de uma centena de produtores ativos. A Olivum, principal associação do setor, agrega 21 lagares e mais de 53 mil hectares de olival, representando cerca de 70% da produção nacional. A Casa do Azeite, por sua vez, reúne as principais marcas comerciais. Entre as de maior volume e notoriedade contam-se Oliveira da Serra, Gallo, Esporão, Casa Anadia, CARM, Rosmaninho, Andorinha (forte no mercado brasileiro), Casa de Santo Amaro, Quinta do Crasto, Cortes de Cima, Acushla, Cabeço das Nogueiras e Fio da Beira, entre dezenas de outras de origem regional.

Curiosidade: Um dos Maiores Olivais do Mundo

Um dos maiores projetos olivícolas contínuos do mundo é português. Nasceu em 2007 como projeto Elaia, uma joint-venture entre o Grupo Mello — através da Sovena, detentora da marca Oliveira da Serra — e a sociedade espanhola Atitlan, e chegou a juntar cerca de 9.700 hectares contínuos no Alentejo, distribuídos por zonas como Campo Maior, Elvas, Avis e Ferreira do Alentejo. Em finais de 2020, a parceria foi dissolvida e os ativos divididos entre os sócios; do lado português, o olival passou a ser gerido pela Nutrifarms.

A Nutrifarms e a olivicultura portuguesa contemporânea

Em 2025/2026, a Nutrifarms — divisão agrícola da Sovena Group — consolida-se como uma das principais estruturas produtivas do setor em Portugal. A empresa reúne cerca de 7.500 hectares de olival, distribuídos por 58 propriedades, além de operar dois lagares e manter aproximadamente 500 hectares de áreas de preservação ambiental.

Frequentemente citada como a maior empresa ligada a olivicultura do mundo, quando não figura no mínimo como a terceira maior.

Sua atuação está fortemente concentrada no Alentejo e reflete o modelo moderno de produção: olivais em regime intensivo e superintensivo, mecanização, irrigação controlada e gestão técnica do solo, incluindo cobertura vegetal para conservação e estabilidade produtiva.

O azeite produzido integra principalmente o portfólio do grupo Sovena, que ocupa posição de liderança no setor oleícola português e está entre os maiores operadores globais, com forte presença em exportação e no fornecimento de azeite para marcas de distribuição.

Nutrifarms no Alentejo

Entre as principais marcas associadas estão:

  • Oliveira da Serra — referência premium portuguesa, ligada ao Alentejo
  • Andorinha — forte presença no mercado brasileiro e internacional
  • Olivari — voltada ao grande consumo e distribuição

Mais do que um operador agrícola, a Nutrifarms representa a transformação estrutural da olivicultura portuguesa nas últimas décadas: a passagem de um modelo tradicional e fragmentado para uma produção em escala, tecnologicamente integrada e orientada ao mercado global.

As Seis DOP de Azeite Português

A Denominação de Origem Protegida é um regime europeu, criado pelo Regulamento (UE) nº 1151/2012, que reconhece produtos cuja produção, transformação e elaboração ocorrem numa área geográfica delimitada, segundo um saber-fazer reconhecido. As DOP de azeite portuguesas foram, na sua maioria, criadas em 1996.

Azeite de Trás-os-Montes DOP

Abrange concelhos como Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Alfândega da Fé e Vila Nova de Foz Côa. Variedades obrigatórias: Verdeal Transmontana, Madural, Cobrançosa e Cordovil. Perfil sensorial: azeite equilibrado, de cor amarela esverdeada, com aromas a fruto fresco, por vezes amendoado, e sensações simultâneas de doce, verde, amargo e picante.

Azeites da Beira Interior DOP (Beira Alta e Beira Baixa)

Cobre 24 concelhos do interior centro do país. Variedades principais: Galega, Cobrançosa, Carrasquenha, Cordovil de Castelo Branco e Verdeal. Perfil: azeites suaves, de fruto fresco, com notas amendoadas, baixa acidez.

Azeites do Ribatejo DOP

Inclui Abrantes, Santarém, Torres Novas e Tomar, cidade onde os antigos Lagares d’el Rei, dos séculos XII e XIII, da época dos Templários, estão a ser convertidos em museu. Variedades principais: Galega (mínimo de 65%), com tolerância de Azeiteira, Blanqueta, Redondil, Carrasquenha e Cobrançosa. Perfil: frutado suave, doce, com amargor e picante ligeiros.

Azeite do Norte Alentejano DOP

Estende-se de Portalegre a Reguengos de Monsaraz. Variedades principais: Galega Vulgar (mínimo 60%), Cordovil de Serpa e/ou Cobrançosa (até 40%). Azeites ligeiramente espessos, frutados, com aroma e sabor suaves.

Azeite do Alentejo Interior DOP

Compreende Portel, Vidigueira e Torrão. Variedades: Verdeal, Madural, Cobrançosa e Cordovil. Perfil: cor amarelo dourado a esverdeado, frutado suave de azeitona madura, notas de maçã e figo, grande sensação de doce.

Azeite de Moura DOP

Reúne os concelhos de Moura, Serpa e Vila Verde de Ficalho, no Baixo Alentejo. Composição: Galega (volume principal), Cordovil de Serpa (mínimo 35-40%) e Verdeal (máximo 15-20%). Perfil: aroma e sabor frutado, amargo e picante.

Resumo prático: como ler o perfil de cada cultivar

Abaixo uma visão resumida do que esperar de cada azeite monovarietal, lembrando que as caractarísticas são mais acentuadas nos azeites mais novos. Outro ponto importante é entender que cada safra, e até mesmo em cada área em uma mesma safra, as características podem sobre variaçoes de intensidade.

Exemplo de painel para três dos principais cultivares em azeites monovarietais

Para simplificar a escala adotei: 0–2 ausente/muito ligeiro, 3–4 ligeiro, 5–6 médio, 7–8 intenso, 9–10 muito intenso.

Resumo produção – importação – exportação – consumo interno

Observações:

  1. Portugal mantém produção entre 160 e 235 mil toneladas
  2. Exportação crescente, consolidando o país como exportador relevante
  3. Importações continuam relevantes (principalmente Espanha), mas complementares
  4. Consumo interno estável, entre 95 e 110 mil toneladas
  5. Mesmo sendo produtor relevante, Portugal:
  • importa azeite para blends e reexportação;
  • atua fortemente como plataforma industrial e comercial, não só agrícola.

Os valores estimados de importação ficam entre 69 e 173 mil toneladas anuais — números bastante substanciais, que confirmam o que a própria Casa do Azeite afirmou em 2022 pela voz da secretária-geral Mariana Matos: Portugal precisa de recorrer a importações para satisfazer as suas necessidades totais, que incluem as exportações.

Os Principais Destinos

As exportações portuguesas de azeite atingiram cerca de 600 milhões de euros em 2023, com um crescimento de 12% face ao ano anterior. Os principais mercados, por valor, são:

  • Espanha — Recebe sobretudo azeite a granel, posteriormente engarrafado e reexportado pelo gigante vizinho.
  • Brasil — É o mercado com maior valor acrescentado para o azeite português engarrafado e de marca. Portugal detém aproximadamente 60% da quota de mercado de azeite no Brasil, país que não produz azeite em escala relevante e depende totalmente de importações. Em 2023, quase 60% das importações brasileiras de azeite tiveram origem portuguesa.
  • Itália — Tal como Espanha, importa volumes significativos de azeite português a granel.
  • Estados Unidos — Mercado em crescimento, sobretudo para azeites premium.
  • Angola, Moçambique, Polónia, Alemanha, Suíça e China — Mercados secundários, com destaque para o crescimento sustentado do consumo chinês.

Um dado revelador: 95% de todo o azeite produzido em Portugal é virgem ou virgem extra, o que coloca o país numa posição privilegiada nos segmentos de qualidade.

Para informações mais detalhadas:

Reconhecimento Internacional: Os Prémios das Últimas Safras

Tendo em conta o elevado número de distinções obtidas por azeites portugueses nos últimos anos (largamente acima de 50 prémios anuais), apresentam-se aqui apenas os mais relevantes do triénio 2023-2025.

Mário Solinas Quality Awards (Conselho Oleícola Internacional)

Considerado o “Óscar do azeite”, é o concurso internacional mais prestigiado do setor, organizado anualmente pelo Conselho Oleícola Internacional em Madrid.

  • 2025: O azeite Oliveira da Serra Edição Limitada, produzido no Lagar do Marmelo em Ferreira do Alentejo pela Nutrifarms, conquistou o primeiro lugar mundial na categoria “frutado verde ligeiro”, batendo 130 amostras de países como Espanha, Itália, Grécia, França e Tunísia.
  • Edições anteriores: A SAOV (Sociedade Agrícola Ouro Vegetal) e a Sociedade Agrícola do Conde têm sido distinguidas em primeiros lugares nas categorias de frutado verde médio e frutado maduro. Portugal e Espanha dominam consistentemente este concurso.

NYIOOC World Olive Oil Competition (Nova Iorque)

É o maior concurso mundial de azeite virgem extra de qualidade.

  • 2025: Portugal conquistou 32 a 34 prémios, incluindo medalhas de ouro para Wildly Virgin (Trás-os-Montes), Cobrançosa Extra Virgin Olive Oil, e medalhas de prata para Monte Vale de Baio (Norte Alentejano, monovarietal Galega biológico) e para Viveiros Monterosa (Algarve, com Picual), entre outros.
  • 2024 e 2023: Portugal manteve presença regular entre os países mais premiados, com mais de 30 distinções por edição.

Concurso Nacional de Azeites de Portugal (Ovibeja)

Realizado anualmente em Beja, é o principal certame nacional. No ranking acumulado das últimas edições, lideram Esporão Biológico Olival dos Arrifes, CARM Praemium, Cabeço das Nogueiras Premium, Fio da Beira Praemium, CARM Grande Escolha, Azeite de Moura DOP, Quinta do Pouchão, Rosmaninho Grand Selection e Quinta do Crasto Premium.

Outros Concursos com Forte Presença Portuguesa

Os azeites portugueses figuram também regularmente entre os premiados no Olive Japan, no Japan Olive Oil Prize, no Flos Olei, no AVPA Paris e no Berlin Global Olive Oil Awards.

Curiosidades Para Levar à Mesa

Algumas notas finais que ajudam a compreender melhor este produto:

A oliveira começa a produzir azeitonas viáveis a partir dos quatro a seis anos de idade, mas pode viver e produzir durante mais de mil anos. A oliveira mais antiga de Portugal, em Cascais, terá entre 2.850 e 3.350 anos.

Apesar de algumas fonte divulgarem que a oliveira mais antiga de Portugal está em Cascais (2.850 a 3.350 anos), mas outras fontes indicam que a mais antiga está no concelho de Abrantes, na aldeia de Cascalhos (freguesia de Mouriscas), e é conhecida como a Oliveira do Mouchão e estima-se que tenha pelo menos 3.350 anos.

Oliveira do Mouchão. Foto: UTAD

São necessários aproximadamente cinco a seis quilos de azeitonas para produzir um litro de azeite. Uma oliveira tradicional dá em média 20 quilos de fruto por ano.

A cor verde ou dourada do azeite não indica qualidade. É por isso que as provas oficiais decorrem em copos azuis.

O azeite virgem extra deve ser conservado em local fresco, ao abrigo da luz e em embalagem opaca. A temperatura ideal de armazenagem ronda os 16 a 18°C. Bem conservado, mantém as suas qualidades até dois anos após a colheita, mas a frescura máxima está sempre nos primeiros meses.

Portugal integra a Dieta Mediterrânica, classificada pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2013, na qual o azeite virgem extra é a principal fonte de gordura.