Especula-se que os responsáveis pela chegada das oliveiras na Espanha tenham sido os fenícios, hipótese mais aceita. Ou ainda através dos gregos.

Contudo somente em 211 a.C., com a chegada do general romano Publius Cornelius Scipio Africanus, o Cipião, que a cultura foi priorizada. Durante o tempo de dominação romana, o azeite produzido na Espanha era comercializado em toda extensão do Império a oeste de Roma.

Cipião
O Cipião – CC BY-SA 2.0 it, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5567249

A invasão romana pelo sul da Península Ibérica deu fim a um dos três conflitos conhecidos como Guerras Púnicas, e representou uma mudança drástica nos hábitos de todos os seus habitantes que não impuseram muita resistência, devido aos avanços na infraestrutura e por consequência no comércio.

Várias estradas forma abertas, técnicas agronômicas aplicadas, sem falar da exploração de metais presentes na região.

O solo era muito fértil e o clima propiciou o desenvolvimento em conjunto com a facilidade de deslocamento fluvial que o vale do Guadalquivir proporcionava até a cidade de Hispalis, atual Sevilha, com grandes barcos e além com embarcaçoes de menor.

Corduba e Cástulo – que ficava a 5 quilometros de Linares, Jaén são exemplos de localidades beneficiadas pela rede pluvial .

Na Andaluzia, as margens do vale do Guadalquivir, era o local escolhido para ser o celeiro de Roma. Logo desenvolveu-se a cultura do vinho, azeite e cereais.

As oliveiras se espalharam por toda margem esquerda do rio, cujas terras são rochosas. Conforme Plínio descreveu, era o solo idela para olivicultura. Também Cadiz Columela no quinto livro, capítulo oito de sua obra “De re rustica” utilizava como pano de fundo a região nas orientaçõe do trato da cultura: Como os vemos em toda a província de Bética (Baética – Província romana da Espanha).

Ele orientava que as oliveiras devriam ser plantadas em um retângulo de 17,60 metros. por 11,73 metros, provavelmente porque os olivais começaram como uma atividade de apoio nas épocas de seca, intercalando a terra com outras culturas. As distâncias hoje variam de 8 X 8 metros, a menos de 4 X 2 em culturas intensivas e até bem menos nas culturas superintensivas.

A cultura foi ganhando cada vez mais importância e Plínio declarou:

…na Andaluzia, no vale do Rio Guadalquivir, nenhuma árvore é mais importante que a oliveira e suas ricas colheitas.

Ou ainda Virgil em sua obra Geórgicas:

Ao contrário da videira, a oliveira não requer cultivo, e nada aguarda a poda recurva ou as enxadas tenazes, uma vez que adere à terra e sustenta os golpes do céu sem se enfraquecer. Por si só, a terra, aberta com o arado, já oferece umidade suficiente para as várias plantas e dá bons frutos quando a grelha é usada adequadamente. Cultivai, ó lavrador! A oliveira, que é agradável à paz .

Contudo nada melhor caracteríza o fim do papel coadjuvante das olivieras do que a citação de Lucrécio (Tito Lucrécio Caro) no século I AC no seu livro “De Rerum Natura“:

Dia a dia, obrigou as florestas de volta para as montanhas e dar as terras baixas culturas, a fim de ter vinhas exuberantes nas colinas e planícies e a mancha azul de azeitonas, de pé, possam propagar nos campos, desfiladeiros, vales e planícies.

Dessa época restam pedaços de ânforas com selo da Baetica (província romana da Espanha), usadas para transportar o azeite em longas extensões pelos rios Rhone, Garonne, Rhine e Danúbio superior. Mas, era principalmente destinada a capital do império, que chegou a consumir 18 milhões de litros por ano durante o reinado de Antonino Pío, no século II D.C.

Em porto de Óstia, cidade fundada por Ancus Marcius, no século VII A.C., existe  um “cemitério” de ânforas, com aproximadamente 22 mil metros quadrados de base, e restos de cerca de 25 milhões de ânforas, na grande maioria da região da Andaluzia. A cidade era o principal entreposto para produtos que seguiam a Roma.

Toda essa popularidade do azeite espanhol impulsionou a expansão das plantações do vale do Rio Guadalquivir até a Sierra Morena  Hills. Quase 57 mil Km quadrados. Através do rio Guadalquivir, único grande rio navegável da Espanha, chega-se a Serviha, Cordoba e Sanlúcar de Barrameda. Para facilitar a logística, as prensas de azeite eram construídas as margens ou até mesmo dentro dos olivais. O azeite era transportado em ânforas, até o porto mais próximo, nas margens dos rios Guadalquivir e Genil. Também existem referências a cultura fora do sul da Espanha, especialmente no vale do Tejo e Ebro.

Após a queda do império romano, e com a chegada dos povos Visigodos, Mouros e Cruzados, a azeitona espanhola continuou nas “manchetes dos jornais”, bem como agradou sobremaneira ao povo árabe em suas incursões pelo continente europeu.

No século XVI, mais precisamente em 1513, Gabriel Alonso de Herrera publicou uma coletânea de informações no livro “Obra de Agricultura”, ou “Tratado sobre Agricultura”. Relançado recentemente como “Ancient Agriculture: Roots and Application of Sustainable Farming”.

Uma obra com informações de práticas bem sucedidas na agricultura pelos Mouros, antes de sua expulsão da Espanha, e pelos colonizadores espanhóis na colônia americana. Restos de olivais, oliveiras encontradas de forma espaçadas plantadas na metade do século XVI confirmam a importância da primeira publicação desse cunho, que atribuiu ao seu autor o epíteto de pai da agricultura moderna.

A interiorização da cultura se deu no século XIX com o advento das estradas de ferro, o que segundo alguns especialistas melhorou a qualidade da azeitona, pois a umidade do ar é menor e a altitude maior.

Hoje, a Espanha produz em média 50% de todo azeite consumido no mundo. Mas isso não significa que detenha nas prateleiras dos mercados a maioria das marcas de azeite ou designação de origem. Devido a liberdade de barreiras entre os países do Mercado Comum Europeu grandes volumes de azeite sai da Espanha a “granel” em grandes tambores e caminhões tanque. Uma verdadeiro êxodo oléico.

Esse é assunto sensível hoje para os produtores espanhóis. Por um lado, eles não querem perder a receita com o escoamento da produção em barris para envasamento sob o rótulo de empresas fora da Espanha. Por outro lado, gostariam de ver reconhecido o valor do produto nacional e da a história do país que mais contribuiu e produz azeite no mundo.

A Espanha pratica diversas técnicas de plantio, mas desde a década de 1990, a plantação superintensiva vem ganhando força . Este tipo de plantio pode ter mais de 1.800 árvores por hectare, onde normalmente se plantam 400 em terreno irrigado e 100 em terreno seco.

Localizam-se em solo espanhol 1.766 lagares, sendo 120 pertencentes ao grupo Dcoop – líder na Espanha, e que sozinho processa 8% de todo azeite do mundo, e não por acaso é também uma das maiores cooperativas produtoras de vinhos do mundo.

A Produção – Consumo entre 2010 e 2018 variou da seguinte forma em KTons – Mil toneladas – O ano refere-se ao fechamento em setembro do período que começou em outubro do ano anterior, logo: 2017 refere-se ao período de out-2016 a set-2017.

Há mais de 20 anos a Espanha produz mais que o dobro de azeitonas que a Grécia, segunda colocada em produção na Europa. Somente o Egito – pasmem! – produz mais azeitonas que a Espanha. Quanto a produção do azeite a Espanha segue isolada desde de 2007 produzindo em média mais da metade da produção mundial. O recorde foi em 2014 com 1.781.500 toneladas ou ainda quase dois milhões de litros de azeite. A segundo país com maior produção é a Itália, mesmo que eventualmente a Grécia a supere.

A despeito da produção diferença de produção, mais de 700 toneladas, a Itália desponta como grande exportadora e detentora de grandes marcas pelo mundo. As razões vão desde “os italianos saberem vender melhor” até as facilidades de fronteira entre os países da comunidade comum européia que “nacionalizam” óleos oriundos de diversos países, passando pela “cosa nostra”. Fato é que a Itália consome mais azeite que produz, e ainda exporta uma “barbaridade”!!!

Muitos produtores espanhóis não são satisfeitos com a falta de reconhecimento e identidade do produto que produzem, mas cedem aos canais existentes de escoamento da produção, quer seja de azeite ou de azeitona a um lagar multinacional. Contudo essa situação tende a mudar:  tanto por movimentos internos visando valorizar o azeite espanhol, como pelo aumento da exigência dos mercados consumidores, que exigem cada vez mais conhecer a origem do produto consumido.

Curiosidade: O segundo óleo mais consumido na Espanha é de girassol, e o mesmo representa apenas um terço do consumo do azeite de oliva.

A região da Andaluzia com 87 268 Km² é a principal região produtora de azeite da Espanha. Desta região sai 35% de todo azeite consumido no mundo. O grande destaque na região é a província de Jaén que possui 550.000 hectares ocupados por infindáveis campos de Picual, Royal, Arbequina e Cornicabra dentre outros. São 60 milhões de árvores!!! O resultado disso é que somente Jaén produz mais azeite que toda a produção da Itália, país segundo colocado na produção de azeite, e com um total de 20% da produção mundial.

Para saber muito mais, veja a publicação Espanha: Parte I, da série Estudo de Caso

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