O dia era frio, de nevoeiro molhado. O Olival repousava, mas foi o silêncio rompido pelo acampar matinal dos trabalhadores do campo. Iniciava-se naquele dia a tarefa de poda. O olival adensado pedia um desbaste severo. O futuro dos frutos dependeria da incisão, do subtrair lenhoso a buscar produção.
Santo Olivavero
Iniciou-se o rito com o amolar dos metais. O limar dos fios, dos dentes das serras e o comandar da quadrilha despertaram as árvores que ali estavam tranquilas. O atritar com o metal e a invisível limalha desprendida do aço foram o estopim do assombro na vida secreta das plantas. Diz a lenda que se iniciou ali um comunicar de raízes, uma telepatia foliar a dar o sinal dos cortes no olival.
Em ação animada, no intuito do bem, os operários armados adentraram no campo e os galhos pesados, carregados de gotas foram caindo na relva, convertendo as ruas em amontoados de tocos agregados de folhas. A operação ligeira no vai e vem dos serrotes, no apertar das tesouras dava às árvores novos ares e formas.
Na conformação renovada, passado o susto e o ardor das feridas a comunicação vegetal converteu-se em calma, em entendimento do ciclo e propósito cumprido. Percebeu-se na poda um mal necessário. Pouco a pouco houve a compreensão da população do arvoredo que compunha o pomar.
Com o lema entendido, com a missão definida, restabeleceu-se a conduta das árvores de paz. As dádivas do Eterno, produtoras de óleo, reencontravam o caminho para a frutificação.
Em meio a tantas galhadas e troncos cruzados movimentara-se uma leira no meio do chão. O operário espantado em meio à neblina que ocultou o mistério pensou tratar-se de animal recolhido, mas encontrou já estático convertido em imagem, um tronco tombado, esculpido mesclado, meio homem, meio árvore a demonstrar oração. Erguia os braços como gesto de glória. Abençoava o ocorrido com ferramentas nas mãos. Tinha a face incompleta assemelhando a um capuz, não se viam os olhos do moço na cruz.
Nasceu neste dia o Sacerdote da Poda e sua missão. A representação do manejo, que embora doído, remeteria ao festejo de colheita farta de azeite espremido. O Santo Olivarero cobria o olhar pra não sentir o doer das companheiras de linha, mas tinha o semblante a aprovar o ocorrido trazendo nas chagas, nas cicatrizes dos cortes, um azeite escorrido.
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