Mais um efeito do aquecimento global se faz sentir esse na Europa e especial na Europa Ocidental. Chuvas com ventos onde em algumas regiões chegou a 150Km por hora devastando construções e vegetação.

Os efeitos, principalmente em Portugal e Espanha, são pessoas desabrigadas, comunidades evacuadas, falta de recursos coo energia e água potável, bem como mortos.

O que foi uma crise hídrica em 2022-2023 na Espanha, hoje se apresenta com o problema inverso.

A esquerda foto de Emilio Morenatti – Ap-Photo que mostrava a crise hídrica de 2023. A igreja fotografada encontrava-se submersa desde 1962. A direita a mesma igreja fotografa em fevereiro de 2026.

Como nosso blog é focado em olivicultura, vamos analisar as consequências atuais e problemas futuros quanto a colheita de azeitonas e produção de azeite.

Chuvas intensas no inverno ibérico: o que realmente está em risco para a olivicultura em 2026

As chuvas intensas que atingiram a Península Ibérica entre janeiro e fevereiro geraram manchetes alarmistas sobre “perdas na colheita de azeitona” e “fruto no chão”. Parte dessas leituras, no entanto, mistura calendários agrícolas distintos e acaba por confundir o impacto real dos temporais. Esta publicação organiza os fatos com base no calendário correto da colheita, separa impactos pontuais da campanha tardia de riscos estruturais para a próxima safra e indica onde, de fato, está o principal ponto de atenção para 2026: as oliveiras, não o fruto da safra passada.

Safra 2024-2025

Antes de falarmos sobre a safra 2025-2026, é importante lembrar o que ocorreu no ano passado, quando diversos veículos de notícia alertavam para a possível quebra de produção na Espanha devido às chuvas do final e 2024, início de 2025.

Alagamento na Andaluzia no ano de 2025 – Foto @guardacivil@el_pais

Como vimos na publicação Produção de azeite 2025-2026. Fator Espanha. – OLIVAPEDIA isso não ocorreu. Essa publicação visa explicar as consequências das chuvas acima do normal na região Ibérica, e até que ponto os altos índices pluviométricos deste início de 2026 impactam a olivicultura.

Produção azeite Espanha X Mundo

Risco para safra 2026-2027

Esse ano (2026) o cenário é muito mais grave. Para dar uma ideia, coloco abaixo uma comparação das chuvas, em milímetros, das duas regiões que provavelmente terão suas produções mais afetadas.

* Fevereiro de 2026: valores consolidados/parciais com base em acumulações efetivas até meados do mês; o total final pode sofrer ajustes marginais.

Comparando com dados históricosPrecipitação acumulada Jan–Fev (mm) — Resumo regional

* 2026 = janeiro observado + fevereiro parcial consolidado.

As previsões para as próximas semanas são otimistas após a sequência de tempestades que assolaram a península Ibérica.

Índice pluviométrico acumlado de 01º a 07 de fevereiro de 2026.
Resumo tempestades Dez 2025- Fev 2026 na península Ibérica

Análise Portugal e Espanha

Antes de qualquer análise de impacto, é essencial fixar o calendário.

Espanha (especialmente Andaluzia)

  • Período principal de colheita: novembro a janeiro
  • Extensão possível: janeiro e, em campanhas atrasadas, fevereiro
  • Em anos chuvosos ou com interrupções operacionais, parte da colheita pode avançar para fevereiro, sobretudo em:
    • olivais tradicionais
    • zonas de montanha
    • áreas com colheita manual ou mecanização limitada

Portugal (especialmente Alentejo)

  • Período principal de colheita: outubro a janeiro
  • Extensão possível: até fevereiro em sistemas intensivos/superintensivos e grandes cadeias industriais, onde a colheita é escalonada conforme a capacidade dos lagares.

Importante – Fevereiro não é o mês típico de colheita, mas não é impossível haver colheita remanescente em determinadas regiões e campanhas específicas. É isso que explica parte dos relatos recentes que geram confusão e alguma especulação.

Impacto real das chuvas sobre a colheita tardia (campanha 2025/26)

Onde ainda havia azeitona por colher, as chuvas intensas causaram problemas reais, porém localizados:

  • impossibilidade de entrada de máquinas em solos saturados
  • atraso final da colheita
  • queda de fruto por vento e chuva intensa
  • aumento do risco de degradação do fruto remanescente

Esses impactos:

  • não afetam a safra como um todo
  • não representam a totalidade da olivicultura ibérica
  • concentram-se sobretudo em olivais tradicionais e zonas específicas

Portanto, falar em “perda generalizada de colheita” por chuvas em janeiro–fevereiro é incorreto. O que existiu foi dano operacional em uma cauda tardia da campanha, não um colapso produtivo.

Onde está o verdadeiro risco

O efeito mais relevante das chuvas intensas de inverno não está no fruto que já foi colhido, mas na árvore que irá produzir no próximo ciclo.

Entre janeiro e março na Europa, e no Hemisfério Norte em geral, a oliveira atravessa fases fisiológicas decisivas:

  • repouso vegetativo
  • diferenciação floral
  • preparação para a brotação da primavera

É nesse contexto que o excesso de chuva pode gerar impactos duradouros. Dentre eles:

Saturação do solo e asfixia radicular

A oliveira é tolerante à seca, mas sensível ao encharcamento prolongado.

  • solos saturados reduzem oxigenação das raízes
  • raízes finas podem morrer ou perder funcionalidade
  • a árvore entra na primavera com vigor reduzido

O Impacto provável é a menor intensidade de floração e pior pegamento dos frutos em 2026.

Erosão e perda de estrutura do solo

Em olivais tradicionais, especialmente em encostas:

  • chuvas intensas favorecem erosão superficial
  • ocorre perda de matéria orgânica e solo fértil
  • raízes podem ficar expostas ou instáveis

O Impacto provável é o efeito cumulativo negativo de empobrecimento do solo, com reflexo não apenas em 2026, mas também nos anos seguintes.

Doenças favorecidas por umidade

Invernos muito úmidos criam condições propícias para:

  • doenças foliares
  • desfolha parcial
  • enfraquecimento fisiológico da árvore

O Impacto provável é a redução da capacidade fotossintética e menor carga produtiva na safra seguinte.

Danos mecânicos por vento

Tempestades podem provocar:

  • quebra de ramos produtivos
  • necessidade de poda corretiva
  • desequilíbrio temporário da copa

O Impacto provável é pontual para a safra de 2026-2027, mas relevante em áreas mais expostas.

Como as chuvas afetam cada tipo de sistema produtivo

Olival tradicional

  • Maior vulnerabilidade a:
    • erosão
    • encharcamento localizado
    • dificuldade de intervenção mecânica
  • Risco mais elevado, sobretudo em terrenos inclinados e solos pesados.

Olival intensivo e superintensivo

  • Melhor controle estrutural e operacional
  • Risco depende fortemente de:
    • drenagem do solo
    • compactação causada por máquinas
  • Onde a drenagem é adequada, a resiliência tende a ser maior.

Quando haverá uma melhor previsão para colheita de 2026-2027?

As observações a serem realizadas na primavera de 2026 na Europa (fim de março a junho) será decisivo na confirmação das previsões de produção, bem como o quanto as mesmas terão de ser reduzidas. As observações serão sobre:

  • intensidade e uniformidade da brotação
  • número e qualidade das inflorescências
  • sinais de stress hídrico inverso (amarelecimento, fraca resposta vegetativa)
  • incidência de doenças foliares

Conclusão

As chuvas intensas do inverno não representam uma catástrofe generalizada para a olivicultura ibérica, mas não são neutras.

O impacto direto sobre a colheita foi pontual e tardio, enquanto o risco real está concentrado na fisiologia das oliveiras e na floração de 2026.

Mais do que o volume de chuva em si, o que definirá o resultado da próxima safra será:

  • a capacidade de drenagem dos solos
  • o estado estrutural dos olivais
  • o manejo realizado nos próximos meses

A primavera, mais do que o inverno, dará a resposta definitiva.

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